É uma constante.
Aos primeiros acordes da guitarra, o meu olhar tolda-se, deixo-me fundir nas cordas que vibram, chorosas.
Não lhe sabia nome até ontem.
Nem sequer que há voz, vozes diferentes, que a acompanham.
No entanto prefiro-a assim, sem esse distúrbio vocal, simples.
É o mais próximo que consegui encontrar:
Historia de Un Amor
Composição de Carlos E. Almarán
sábado, dezembro 01, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
E porque se falava em povo, em como o fazer agir e reagir, em ordens e por aí fora, lembrei-me de que tinha ali guardada uma foto manhosa -- peço desculpa pela falta de qualidade -- que tirei nos lavabos do Bank of Canada. Não nos lavabos que são usados pela clientela, mas sim aqueles que os empregados* utilizam.
* - Esta informação é de notável relevo; para mim.
segunda-feira, novembro 12, 2007
I'm feeling emotionally sick...
Com os olhos vidrados, mas sem lágrimas, disse-me a Verónica esta manhã, a escassos minutos de sair para apanhar o autocarro. Não sabe explicar muito bem a razão porque assim se sente. Uma das vontades de chorar: porque gostaria de passar mais tempo com o pai (admirei-me bastante deste questionar subentendido, uma vez que tem vivido com ele cada dia da sua vida). Voltou à carga com a inadaptação a esta nova escola e à falta de amigos que sente; algo invulgar nela, foi sempre bastante sociável.
As manhãs são sempre uma correria infernal. Exaustam e trazem muitas vezes memórias não tão alegres que trazemos reprimidas durante as horas mais joviais do dia.
Eu senti-me uma perfeita idiota ao escutar-lhe as palavras ditas com tanta, e afirmada, certeza. Idiota e incompetente, por não saber como lidar com este tipo de situação. Situação pela qual eu mesma, infinitas vezes, passo mas nunca verbalizo.
E orgulhosa dela. Por vê-la madura o suficiente e saber ter consciência das mudanças que atravessa.
Como ela, também eu me sinto engolida pelo tempo. Ou pelo Tempo.
Desejosa que não houvessem tantas e variadas distracções como se vêm nos dias de hoje, que nos fazem querer multiplicar em vários eus só para poder usufruir de todas elas.
Quando, no fundo, um bom livro, uma companhia sem igual, ou um recostar-se à sombra duma qualquer árvore, são exemplos do simples que mais necessitamos.
O Daniel desapareceu de casa e esteve ausente durante umas duas horas.
Tinha aparecido cá em casa um dos amigos dele da escola. Um tal de Anthony, pela primeira vez. Esperou uns minutos lá fora enquanto o Daniel terminava os deveres, e ,logo a seguir, deixei-os a brincar no jardim aqui à frente de casa, juntamente com o David e um outro amigo costumeiro. Quando mais tarde me dei conta de que o Daniel já não se encontrava com o irmão, e depois de ter questionado este se sabia para onde ele tinha ido, comecei a ficar preocupada. Achei estranho ele ter saído sem me ter dito onde ía - nunca o fez até agora.
Após esperar alguns minutos, decidi investir numa procura.
Reparei que ele levou a bicicleta para poder acompanhar o Anthony.
Só podia estar num dos parques que ficam ao redor. Assim fiz. Corri-os todos umas três vezes cada um. Nada do moço. Com a preocupação e a irritação a escalarem vertiginosamente, investi numa visita a casa do amigo. Às apalpadelas lá dei com a casa e com uma outra mãe completamente no escuro, mas esta sem muita ou nenhuma da preocupação que eu levava; o que me deixou ainda mais a ferver.
Com a noite a aproximar-se e a fumegar pelos olhos, num rompante desisti do carro, peguei na bicicleta e enveredei pelo caminho que costuma ser atracção fácil aos gaiatos. Nem a meio dele ía, quando me deparo com os dois "rufias" pela frente a pedalarem muito contentes de encontro a mim.
(Não sei ao certo se me apetecia esbofeteá-lo se abraçá-lo ao ver as suas faces rosadas...)
Enviei então o Anthony para casa e convidei-o a nunca mais me bater à porta, (... talvez... talvez tenha sido bastante dura com ele... talvez) e quanto ao Daniel, pedalava vigorosamente à minha frente, de sobrolho carregado sem perceber muito bem a razão da minha fúria.
Depois de acalmados os ânimos - meus e dele - conversamos sobre o sucedido.
E agora eu mastigo situações:
Durante duas horas há miúdos que vagueiam pelas ruas da cidade, sem a presença de algum adulto, e não há "lei" alguma que proíba os pais de os deixarem andar à solta. Com oito anos já podem ir para o autocarro, parque ou casa de amigos, sózinhos. No entanto, se os pais deixarem estes mesmos catraios de oito anos em casa sózinhos, pelo mesmo período de tempo, são passíveis de graves transtornos e repreensões por parte de organizações que se dizem pela segurança das crianças.
Ultrapassa-me. Tudo isto é-me perfeitamente descabido.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Shrew, disse-me o carteiro enquanto me estendia as cartas. Mas já segundos antes ouvi um tilintar no cérebro que me soou o nome Musaranho. O estranho caso de nomes dos quais desconhecemos a forma. A verdade é que nunca até ali tinha visto semelhante bichinho; não seria maior do que o meu dedo, o indicador.
Era uma manhã de Agosto, sol resplandecente, a cores quentes.

terça-feira, outubro 23, 2007
quinta-feira, outubro 04, 2007
É sempre aquele reflexo maternal, ou o tal instinto, que vem ao de cima sempre que vejo crianças de bicicleta; abrando e mantenho os olhos nelas até me afastar de vez, principalmente quando reparo que os pais - neste caso a mãe, imagino eu - se encontra a uns bons vinte metros à frente dela. Dei comigo a proferir um Auuu! quando a vi estatelar-se de cara contra a parede. Doeu, com certeza. Tinha tentado enfiar a bicicleta entre a parede e um carrinho de compras desleixado em cima do passeio, mas não contou com a largura dos pedais talvez, e estes últimos devem ter roçado o tal esquecido. Noto que a mãe pára, olha por sobre o ombro, pé direito no passeio, e lhe desata um grito Brianna, come on!
Porventura não reparou que a filha se tinha magoado. Prontifico-me a parar, e estender-lhe uma voz igualmente materna, tal qual o olhar que segundos antes tinha dirigido à pequena, She hit her face against the wall...
Virou o rosto na minha direcção, em câmara lenta, e, sem me dirigir palavra, recua. Não lhe consegui ler bem o rosto. Talvez porque se me pareceu tão gélido.
Qual contraste com o lindo céu que se me deparava pela frente; a pôr-se o sol em tons quentes, e por ironia, o som que sai da rádio diz-me Picture yourself in a boat on a river With tangerine trees and marmalade skies.
Se eu disser que nas compras que tinha acabado de fazer levava marmelos
pela primeira vez em dezanove anos de vida aqui... ninguém acredita, pois não?
sexta-feira, setembro 21, 2007
O Daniel rodava o copo de água sobre a mesa, com o olhar fixo na pedra de gelo que boiava lá dentro, quando de repente me diz e pergunta logo a seguir I've always wanted to know: why is the inside of the ice cube whiter than the edges?
Agora já lhe posso responder mais concretamente após uma breve pesquisa feita--se bem que a minha teoria do oxigénio concentrado não falhe lá muito.
Coisas da twilight zone.
Alguém me pergunta se conheço a tradução para a palavra twilight em português. Apanhou-me assim de repente, não me veio logo à tona, mas, olhando para o horizonte que reflectia precisamente a luz que se requer num twilight, soltou-se facilmente Crepúsculo!
Meia volta dada, e tenho outra voz que me indaga Que palavra foi essa que disseste?
Crepúsculo! Lá respondi eu em jeito de ritmo de dança, como se soubesse já o que me esperava ao finalizar o meu rodopio.
Ahh! Mas essa é uma palavra de dicionário!
Não tenho palavras para descrever o olhar com que fiquei...
segunda-feira, setembro 17, 2007
E já agora também explico--ou confesso talvez--, que para além do meu tempo ser terrivelmente apertado, não me tem feito nenhuma falta cá vir escrever. Já rasurei uns quantos posts mentais, para logo de seguida os deixar de molho nesse mesmo pote e eventualmente os deixar lentamente se me esvaziarem. Confesso sim que me tem bastado cá vir e ler o que se faz lá por fora e esquecer-me de mim. Tem-me sabido bastante bem.
Hoje, seis meses depois de algo que ainda não estou preparada para esquecer nem perdoar.
Hoje, bateu-me à porta e entregou-me um saco de maçãs lá da macieira que têm no quintal. Com os dedos trémulos e no rosto uma súplica de perdão.
Se calhar imaginei o rosto.
Mas os dedos não.
E foram esses que me trouxeram de volta aqui.
terça-feira, agosto 07, 2007
É espantosa a sensação que se tem ao liderar uma canoa. A minha primeira vez a remar uma. Não penso ter jamais sentido tão perfeito acorde com a natureza como neste dia; laçadas dadas em sintonia numa bela sinfonia com o mundo verde. O silêncio que apazigua.
Lac à La Caille, La Pêche, Québec
Mais fotos desse fim-de-semana aqui.
quinta-feira, julho 26, 2007
«Não se nasce português. Fica-se português. É o atavismo…»
João Vuvu, in Vai e Vem (2002), de João César Monteiro
Lá de vez em quando, há certos conceitos, sons, e até cheiros que subsistem na mente, na minha, por vários dias; como que a tentar chamar-me a atenção para algo que me falhou no passado. Ainda não consegui perceber o porquê daquela frase me sobrevoar o pensamento. De facto, não consigo até perceber o verdadeiro sentido que lhe devem ter querido dar. Tem ou não uma conotação negativa? E a contradição que lhe vejo implícita, existe?
quarta-feira, julho 04, 2007
quinta-feira, junho 28, 2007
Alarm Clock
Time:
6:00am
Repeat:
Daily
Alarm:On Off (OFF!!)
A partir de hoje mesmo: Off.
Nunca me deixei afectar pelo stress seja lá de que natureza, mas devo admitir que houve manhãs em que me devem ter visto a fumegar e a deitar faíscas pelos olhos. Os pequenos. Nunca fui madrugadora - nem eles o são! -, e sei que lhes devo pedir desculpa por tantas vezes os ter praticamente arrastado da cama para fora, puxados pelos pés em jeito de salvamento. Sei que me perdoarão.
Foi um ano escolar demasiado penoso em termos de horário matinal, mas é só esse o factor que pesa a negar a faceta dele. E agora, livros de lado, mochilas ao ar - não sei onde meter tanta caixa de material escolar vezes quatro... -, lancheiras a lavar, e nós? nós enfiamos o nariz fora de portas a farejar o calor que se esbate por cá, enquanto pouco dura.
quinta-feira, junho 21, 2007
Já quase tropeçamos no São João, e eu em dívida de há mais de uma semana para com este post. É o Verão o culpado, e a languidez com que me afaga todos os dias.
Dia 13, portanto, seria a data no cabeçalho.
Há certos acontecimentos que, por si sós, nada têm de peculiar, não fosse o contexto em que ocorreram, e este assim o tomei como tal.
Enquanto polia as facas antes de as pousar na mesa, simetricamente paralelas com os garfos no outro lado da mesa, uma para a salada, outra para o prato principal, comecei a dar-me conta do som que se fazia ouvir na sala através do sistema musical, fechado, com certeza, do hotel. E logo após esse dar-me conta, dou comigo a juntar letras à melodia que se ouvia no fundo, Dos populares pregões matinais que já não voltam mais!.
Pousei então o meu olhar na parede em frente e What are the odds...?! saiu-me da boca meio em pensamento, meio vocal, ao que todos queriam saber que odds eram esses. O certo é que, depois da explicação, já não tinha nenhum adepto dessa minha ode - nunca cheiraram um manjerico, por certo.
What are the odds, realmente. A mais de 5.000 quilómetros de distância, e precisamente no dia 13 de Junho: José Galhardo, Amadeu do Vale, Raul Portela, deliciaram-me os sentidos, e eu fui Amália.
sexta-feira, maio 25, 2007
Neste dia, em que o governo emite um alerta para a onda de calor que se faz sentir aqui pela capital, certas partes de Alberta estão cobertas de neve, e eu? eu voltei.
De ursos, nada vi infelizmente - queria enfrentar os meus medos -, só me rodeiam os Sapiens, Erewhon, e esses nada querem comigo; tenho embutido um repelente natural desde a nascença e que se vai aperfeiçoando com a idade. Talvez tenha razão o Bic com a teoria da globalização amena e andem por aí os bichos à deriva sem saberem quando se ausentarem.
Descansei o olhar por estas bandas:
Bon Echo Provincial Park
... e estou feliz: Tenho coentros a nascerem no quintal.
quinta-feira, maio 17, 2007
O mês de Maio marca sempre o início de fins-de-semana prolongados. O dia da Rainha tem sido a nossa bandeirola de partida para o primeiro acampamento do ano, apesar de ainda fazer frio à noite. Já houveram anos em que, sorrateiramente, ligamos uma enorme extensão eléctrica para nos aquecermos durante o sono.
Este ano, mais do que nos anteriores, o meu medo agravou-se.
Aquele que tenho aos ursos.
O mais certo é esquecer-me destes suores frios em lá chegando. Seria o mais sensato.
Mas desta vez andei a informar-me. Encontrei esta folha que fala do que se deve e não deve fazer se nos depararmos com algum.
Porque há sempre um episódio que me leva a cheirar ursos por dentro da vegetação e, sei-o agora, nunca devia ter voado naquele dia pelo trilho afora com os meus filhos de arrasto pelo ar.
A gente vê-se na volta.
(espero bem que sim)


