quinta-feira, outubro 04, 2007





É sempre aquele reflexo maternal, ou o tal instinto, que vem ao de cima sempre que vejo crianças de bicicleta; abrando e mantenho os olhos nelas até me afastar de vez, principalmente quando reparo que os pais - neste caso a mãe, imagino eu - se encontra a uns bons vinte metros à frente dela. Dei comigo a proferir um Auuu! quando a vi estatelar-se de cara contra a parede. Doeu, com certeza. Tinha tentado enfiar a bicicleta entre a parede e um carrinho de compras desleixado em cima do passeio, mas não contou com a largura dos pedais talvez, e estes últimos devem ter roçado o tal esquecido. Noto que a mãe pára, olha por sobre o ombro, pé direito no passeio, e lhe desata um grito Brianna, come on!
Porventura não reparou que a filha se tinha magoado. Prontifico-me a parar, e estender-lhe uma voz igualmente materna, tal qual o olhar que segundos antes tinha dirigido à pequena, She hit her face against the wall...
Virou o rosto na minha direcção, em câmara lenta, e, sem me dirigir palavra, recua. Não lhe consegui ler bem o rosto. Talvez porque se me pareceu tão gélido.
Qual contraste com o lindo céu que se me deparava pela frente; a pôr-se o sol em tons quentes, e por ironia, o som que sai da rádio diz-me Picture yourself in a boat on a river With tangerine trees and marmalade skies.

Se eu disser que nas compras que tinha acabado de fazer levava marmelos
pela primeira vez em dezanove anos de vida aqui... ninguém acredita, pois não?




sexta-feira, setembro 21, 2007





O Daniel rodava o copo de água sobre a mesa, com o olhar fixo na pedra de gelo que boiava lá dentro, quando de repente me diz e pergunta logo a seguir I've always wanted to know: why is the inside of the ice cube whiter than the edges?

Agora já lhe posso responder mais concretamente após uma breve pesquisa feita--se bem que a minha teoria do oxigénio concentrado não falhe lá muito.








Coisas da twilight zone.

Alguém me pergunta se conheço a tradução para a palavra twilight em português. Apanhou-me assim de repente, não me veio logo à tona, mas, olhando para o horizonte que reflectia precisamente a luz que se requer num twilight, soltou-se facilmente Crepúsculo!

Meia volta dada, e tenho outra voz que me indaga Que palavra foi essa que disseste?
Crepúsculo! Lá respondi eu em jeito de ritmo de dança, como se soubesse já o que me esperava ao finalizar o meu rodopio.
Ahh! Mas essa é uma palavra de dicionário!

Não tenho palavras para descrever o olhar com que fiquei...



segunda-feira, setembro 17, 2007





E já agora também explico--ou confesso talvez--, que para além do meu tempo ser terrivelmente apertado, não me tem feito nenhuma falta cá vir escrever. Já rasurei uns quantos posts mentais, para logo de seguida os deixar de molho nesse mesmo pote e eventualmente os deixar lentamente se me esvaziarem. Confesso sim que me tem bastado cá vir e ler o que se faz lá por fora e esquecer-me de mim. Tem-me sabido bastante bem.







Hoje, seis meses depois de algo que ainda não estou preparada para esquecer nem perdoar.
Hoje, bateu-me à porta e entregou-me um saco de maçãs lá da macieira que têm no quintal. Com os dedos trémulos e no rosto uma súplica de perdão.
Se calhar imaginei o rosto.
Mas os dedos não.
E foram esses que me trouxeram de volta aqui.



terça-feira, agosto 07, 2007




É espantosa a sensação que se tem ao liderar uma canoa. A minha primeira vez a remar uma. Não penso ter jamais sentido tão perfeito acorde com a natureza como neste dia; laçadas dadas em sintonia numa bela sinfonia com o mundo verde. O silêncio que apazigua.


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Lac à La Caille, La Pêche, Québec




Mais fotos desse fim-de-semana aqui.




segunda-feira, julho 30, 2007




Sou constantemente trocada por um fuso.








Um fuso horário.



quinta-feira, julho 26, 2007




«Não se nasce português. Fica-se português. É o atavismo…»

João Vuvu, in Vai e Vem (2002), de João César Monteiro




Lá de vez em quando, há certos conceitos, sons, e até cheiros que subsistem na mente, na minha, por vários dias; como que a tentar chamar-me a atenção para algo que me falhou no passado. Ainda não consegui perceber o porquê daquela frase me sobrevoar o pensamento. De facto, não consigo até perceber o verdadeiro sentido que lhe devem ter querido dar. Tem ou não uma conotação negativa? E a contradição que lhe vejo implícita, existe?



quarta-feira, julho 04, 2007





Ainda não foi desta! Eu bem quero enfrentar os meus medos, mas os medos é que me parecem estar com mais de mim que eu deles.



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Skootamatta Lake Road, North Frontenac, Ontario



quinta-feira, junho 28, 2007




Alarm Clock


Time:
6:00am

Repeat:
Daily

Alarm:
On Off
(OFF!!)


A partir de hoje mesmo: Off.
Nunca me deixei afectar pelo stress seja lá de que natureza, mas devo admitir que houve manhãs em que me devem ter visto a fumegar e a deitar faíscas pelos olhos. Os pequenos. Nunca fui madrugadora - nem eles o são! -, e sei que lhes devo pedir desculpa por tantas vezes os ter praticamente arrastado da cama para fora, puxados pelos pés em jeito de salvamento. Sei que me perdoarão.
Foi um ano escolar demasiado penoso em termos de horário matinal, mas é só esse o factor que pesa a negar a faceta dele. E agora, livros de lado, mochilas ao ar - não sei onde meter tanta caixa de material escolar vezes quatro... -, lancheiras a lavar, e nós? nós enfiamos o nariz fora de portas a farejar o calor que se esbate por cá, enquanto pouco dura.


quinta-feira, junho 21, 2007




Já quase tropeçamos no São João, e eu em dívida de há mais de uma semana para com este post. É o Verão o culpado, e a languidez com que me afaga todos os dias.
Dia 13, portanto, seria a data no cabeçalho.
Há certos acontecimentos que, por si sós, nada têm de peculiar, não fosse o contexto em que ocorreram, e este assim o tomei como tal.
Enquanto polia as facas antes de as pousar na mesa, simetricamente paralelas com os garfos no outro lado da mesa, uma para a salada, outra para o prato principal, comecei a dar-me conta do som que se fazia ouvir na sala através do sistema musical, fechado, com certeza, do hotel. E logo após esse dar-me conta, dou comigo a juntar letras à melodia que se ouvia no fundo, Dos populares pregões matinais que já não voltam mais!.
Pousei então o meu olhar na parede em frente e What are the odds...?! saiu-me da boca meio em pensamento, meio vocal, ao que todos queriam saber que odds eram esses. O certo é que, depois da explicação, já não tinha nenhum adepto dessa minha ode - nunca cheiraram um manjerico, por certo.
What are the odds, realmente. A mais de 5.000 quilómetros de distância, e precisamente no dia 13 de Junho: José Galhardo, Amadeu do Vale, Raul Portela, deliciaram-me os sentidos, e eu fui Amália.





sexta-feira, maio 25, 2007




Neste dia, em que o governo emite um alerta para a onda de calor que se faz sentir aqui pela capital, certas partes de Alberta estão cobertas de neve, e eu? eu voltei.
De ursos, nada vi infelizmente - queria enfrentar os meus medos -, só me rodeiam os Sapiens, Erewhon, e esses nada querem comigo; tenho embutido um repelente natural desde a nascença e que se vai aperfeiçoando com a idade. Talvez tenha razão o Bic com a teoria da globalização amena e andem por aí os bichos à deriva sem saberem quando se ausentarem.

Descansei o olhar por estas bandas:

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Bon Echo Provincial Park


... e estou feliz: Tenho coentros a nascerem no quintal.




quinta-feira, maio 17, 2007




O mês de Maio marca sempre o início de fins-de-semana prolongados. O dia da Rainha tem sido a nossa bandeirola de partida para o primeiro acampamento do ano, apesar de ainda fazer frio à noite. Já houveram anos em que, sorrateiramente, ligamos uma enorme extensão eléctrica para nos aquecermos durante o sono.
Este ano, mais do que nos anteriores, o meu medo agravou-se.
Aquele que tenho aos ursos.
O mais certo é esquecer-me destes suores frios em lá chegando. Seria o mais sensato.
Mas desta vez andei a informar-me. Encontrei esta folha que fala do que se deve e não deve fazer se nos depararmos com algum.
Porque há sempre um episódio que me leva a cheirar ursos por dentro da vegetação e, sei-o agora, nunca devia ter voado naquele dia pelo trilho afora com os meus filhos de arrasto pelo ar.
A gente vê-se na volta.


(espero bem que sim)


segunda-feira, maio 07, 2007




Nada tenho a dizer ao mundo. Por agora.

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E porque, "no silêncio eu escalo-me", um dia destes eu apareço à tona, quanto mais não seja para retomar o fôlego.




domingo, abril 29, 2007




Mesmo neste descampado verde, impressiona a vista e a alma. Sentimo-nos levados a sentar nos degraus ou nas rochas que o rodeiam, fechar os olhos e imaginar as ondas que outrora estalaram contra aquelas paredes robustas, sólidas.
Deve sentir-se perdido, aqui no meio desta selva de gases, ferro e cubículos.

No entanto, levo comigo o cheiro a maresia.


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Algures, numa janela, estacionei o retrato frontal.



quarta-feira, abril 25, 2007




A isto é o que eu chamo de NOTÍCIA. Ainda não tive oportunidade de vasculhar a rede a esse respeito, mas a verdade é que gostei mesmo do que ouvi pela manhã na radio. Traduzindo muito grosseiramente, diz que descobriram um novo planeta fora do nosso sistema solar com condições muito semelhantes às da Terra.

O irónico da situação seria vir-se a descobrir que eles - em o havendo, claro - também andam à procura do mesmo.




Adenda: Um pouco mais de informação do "novo" planeta, aqui.







segunda-feira, abril 23, 2007




Sei que nada tem a ver com a efeméride em causa, mas porque se me tenha visionado em tal dia - sim, estou a fazer batota com o dia de publicação deste post - cá deixo registo de tal pensamento:


Detenho-me perante os incontáveis...


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Por iniciativa própria, lembraram-se as duas de me fazer esta surpresa. Sabe bem ser mimada assim com tanto carinho; e, pelo conteúdo da embalagem, presumo que a minha média semanal de bolos irá aumentar.



quarta-feira, abril 18, 2007





As estrelas andam apagadinhas, e cometas são muitos, por demais, já estou farta deles.
Procuro um que deixe um rasto imperceptível mas permanente.



terça-feira, abril 10, 2007




O mais funesto dos cancros: Globalização.

Segregação cabal.


quinta-feira, abril 05, 2007




Eu só queria trocar o cartucho de tinta #96 que tinha comprado ontem erradamente, pelo 97. Nada mais. Uma simples operação de troca e pagar os poucos dólares de diferença. Mas não; cheguei às 14:13 e saí às 14:41 completamente atravessada com a estupidez humana que atravessa certas cabeças.
Apresento o recibo para que faça a devida troca, mas pelos vistos, a menina ficou mais atenta ao nome do empregado que me atendeu no dia anterior do que propriamente ao artigo em questão, segundo mo disse I've never seen this name before! E com um giggle lá continuou a trepar nas teclas. Apresenta-me uma nova factura no valor de $26.22.
Deve haver algum engano, a diferença não pode ser assim tão grande. Cometeu o pequeno erro de retirar o primeiro artigo que aparecia na factura, de um valor muito inferior e que eu, na verdade, não devolvia, e cobrar-me como deve ser o #97. Nada de pânico, assegurava eu, mas a jovem já levava as mãos à cara.
A seguir decide então facturar-me o que devia ter feito logo de início. Nova factura de correctos $5.70.
Agora vem a parte interessante. Mais.
Para corrigir o erro inicial, ela apresenta-me uma nova factura, não a anular aquela primeira irregular de $26.22, como ainda me cobra mais $28.49 no cartão!
Bem. Aí já nem a minha pachorrenta têmpera a conseguiu segurar - nem a mim!
Agora já eram os cabelos que ela alisava, ou arrancava de modo delicado, nem sei, chama por ajuda e desaparece por detrás duma estante para ir ajudar outro alguém. Pareceu-me que lá ía conseguir enfim sair dali, mas...
Can you explain this invoice? Eu é que tenho que explicar isso? mandei-lhe de sobrolho no ar. Lá me deu um sorriso descabido, Oh come on..., aquele rosto de homenzarrão de 2 metros. Eu explicar, expliquei, mas o tipo não percebeu que de facto tinha que me devolver os dois montantes e, em contrapartida, me apresentava um outro que agora era eu que não entendia.
Chama então o manager, que por alguma razão é de facto o Manager e que, num minuto, me corrigiu os montantes e me pôs a salvo dali para fora.

Eu não sei, mas será que a inteligência existe em proporção inversa ao comprimento das unhas do indivíduo?

O resultado documental é este:

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