A ampulheta descansa nos meandros do tempo.
Parar o tempo: um desejo do mortal quando se esquece da sua qualidade de deus.
Dedicado a alguém com muito poucas dificuldades de comunicação, neste dia 9, Janeiro.
A ampulheta descansa nos meandros do tempo.
Parar o tempo: um desejo do mortal quando se esquece da sua qualidade de deus.
Dedicado a alguém com muito poucas dificuldades de comunicação, neste dia 9, Janeiro.
Sexta-feira 5,
O dia 10 aproxima-se e eu deixo-me boiar indecisa nos minutos que as horas têm; embalo-me neles como quem espera acordar de um sonho em branco, sem recordar que passou esse dia sequer. Adio a decisão de ir, porque o querer é mesmo esse, Ir.
É o peso da espectativa acumulada este tempo todo desde que o soube que me amedronta.
Tenho medo de como irei reagir ali, ao sabor daquelas ondas, porque me desconheço naquele determinado ambiente e também porque já espero demais.
Por isso peço sinais de fora.
Coloco o meu destino nas mãos de entidades desconhecidas - troco o desconhecido a troco de outro do mesmo valor. Louca!
Regresso a casa do trabalho, madrugada diferente esta: a bruma encanta e enfeitiça os passeios, as ruelas, edifícios, e tudo pertence a um mundo diferente esta noite. Talvez por isso mesmo, escolho aquela rota menos usual, a mais longa, a que ladeia o rio, a mais adequada neste enquadramento. Só se vêm as luzes dos candeeiros que, de par em par, a cada dez, vinte metros, acompanham-me silenciosos, vão-se vergando à medida que os passo, Boa noite, dizem-me eles pesarosos. Tudo é breu, excepto pelo triângulo que se perpétua continuamente defronte dos meus olhos formado por estas luzes que flutuam, dir-se-ia, no nada, sem apoio, e eu conduzo nessa estrada apoiada nelas.
Haunted, como som de fundo. Perfeito.
Semáforo vermelho, páro por minutos, prestes a emergir numa estrada mais movimentada, menos assombrada, mais desfasada, menos em mim. Dou pela hora, 1:01.
Sempre veio o tal sinal, Hello (m), don't cry, I'm still here all that's left of yesterday...
1 de Janeiro 2007, 3:33am comecei a ler O Ano da Morte de Ricardo Reis e a imagem do primeiro segundo do ano regressa cinzenta, a cheirar a queimado e o medo de ser levada, pior, que mos levem, na explosão.
Pelas 6:48am acorda-me o telefone de algum sonho indiscreto, número encoberto, só me deixou proferir dois Hello, não ditos de seguida, espaçados por breves segundos. Tira-me o sono e nem me deixa sequer desejar Bom Ano!, tal a pressa em que desligou; e o sono regressa quando penso no quarto que também eu quero ter de janelas amplas com vista para o rio. Qualquer rio. Qualquer? Não.
Entre o fim e o começo, existe o pequeno rasgo onde as infinitas possibilidades estão em alvoroço, saltitantes, espectantes, afervoradas.
Escolhe-me... Escolhe-me... Escolhe-me...
Comecei o ano com um arco-íris estampado no rosto. Ao longo do percurso, as cores foram-se esvaindo, hoje, só o arco permanece.
A noite de 31 para o 1º dia do ano novo, sempre se me afigurou de mágica. Tão mágica que ainda hoje espero por tal passe que me deixe assombrada.
(nunca fiz tal, mas amanhã apetece-me listar o balanço do ano que passou)
Também não será esta a noite em que vou concretizar o meu desejo de perfeita comemoração da morte e renascimento: Celebrar a continuidade.
(durante o correr do ano, existe a continuidade materializada; esta noite seria portanto o momento ideal para que se parasse e exaltasse tal 'materialismo')
USAGE: Apply on face, hands and entire body:
Honestidade.
Usem-na no vosso e no dos outros. Sejam mais honestos do que a própria consciência vos dita.
É o que vos - e me - desejo para 2007.
Disse-me ele que, quando lá voltasse, não perdesse o rodovalho. O que ele não sabia é que eu já lá fui musa piscatória.
Nem dois minutos o isco esteve na água, e cá veio ele...
Cabo Carvoeiro, 2006
Não deve ser rodovalho, mas...
Sei que me prendo a pormenores ridídulos e a eles me atraio como polaridade negativa, mas... saberá alguém explicar-me semelhante parafuso:
Orientação religiosa : Ateu Não praticante
Não vejo qual é o prazer que têm certas pessoas em vestir roupa completamente encharcada com cheiro a naftalina, principalmente quando, nos dias que correm, a maior parte das etiquetas reza poliéster.
Mas mais grave ainda é quando essa mesma roupa encharcada serviu para acolchoar caixas de broínhas numa viagem transatlântica.
Isso, sim, ultrapassa o ridículo da primeira cena.
Arrghhh! Que sabor horrível...
Versão 1:
- Atão... vai mais uma?
- Epá, é melhor não, vou conduzir.
Versão 2:
- Oh Manel, bebes outra?
- Hmmm, se calhar não. Sabes que vou caminhar.
Portanto, já deviam saber: Nesta quadra que atravessamos, se beberem -- demasiado --, não saiam do local onde se encontram.
... e uma lebre a fugir diante dos faróis do carro, escuridão a envolvê-la, e duas pesadas galochas a tentar surripiá-la à natureza.
Aí pelos oitenta, meados de. Era o ano das viagens intermináveis a Espanha, apesar de já não ser o tempo da carne de vaca barata escondida debaixo do assento do carro, ou do azeite quase de borla, mas também mais oleado. Não. Não era esse tipo de ano. Isso tinha sido um pouco antes.
Era o ano do esconderijo lá para o cume de Manzaneda, a Cabeza esbranquiçada, local onde minha mãe pediu que nos calassemos pois queria ouvir o silêncio. Ano das vacas arremessadas para o monte de manhãzinha bem cedinho naquele Estio de espigar o cabelo durante o pico do dia e só voltarem pela noitinha, preguiçosas, calmeironas.
Merenda parca. Corpo mingado. Ano do trevo de quatro folhas.
Ano do ninho invadido por estas mãos descuidadas, e dos quatro passarinhos que passaram a comer minhocas apanhadas por estas mesmas com mais cuidado.
Em abono da verdade também digo: Nem sei se realmente foi um só ano, ou menos, ou mais, mas foi sim, recheado.
Até a minha vizinha aprendeu uma lição. De olhos esbugalhados, mãos entrelaçadas por sobre o regaço negro de viúva secular, espanta-se e nós de seguida o ficamos, Não percebo como é possível? Esta gente nunca me viu mas todos sabem o meu nome!.
O seu nome: (Zul)mira.
Ali devias ter ficado, Pai. Talvez com essa decisão não tomada ainda estivesses no meio de nós. As saudades de ti doem.
Quando se é mãe, não faltam motivos para que nos sintamos como um balão prestes a explodir de alegria. Mas pelo meio de todos esses fenómenos que vão empolando ao calhas pela nossa vida fora, existem dois momentos, até à data, que não requerem sequer uma impressão a papel para o futuro, pois duvido que os possa vir a esquecer.
Um deles, aquele momento em que sentimos o peso daquele volume que transportamos durante largos meses a ser transferido para o exterior do colo, ser colocado aqui bem perto do peito onde lhe sentimos, finalmente, a respiração.
O outro é aquele dia em que, de repente, damos conta que os nossos rebentos ganham manejo próprio e coordenam, por si mesmos, o visual com a fala e começam a ler. É como se as rédeas lhes tivessem sido passadas para as suas mãozitas naquela primeira vez que tal sucede.
Esta semana foi o David. O último e, talvez por essa razão, o mais precoce. Porque não o esperava de todo, fiquei alarmada com tal procedimento até e penso se me está a faltar o tempo habitual que costumava passar com eles.
A partir de agora já posso retirar o Scrabble do armário onde tem estado escondido .
Foi criado com o objectivo de ser mais do que um trabalho a dois, no entanto, o tempo não lhe tem estado de feição, adiando cada vez mais a sua apresentação, e colocando-o este tempo todo na penumbra.
A quem esteja interessado em se juntar, será um enorme prazer abrir as portas do
Acho um absurdo quando leio as queixas desenroladas daqui e dali; bolas de cotão atravessadas na goela.
Não é o país que é o carrasco em vida.
Nem tampouco se aproveita dos louros da nacionalidade após a morte do poeta.
Será que não há maneira de compreenderem que poeta - poeta que o seja - é assim mesmo?
É ele próprio que se isola durante a vida e, nessa mesma escolha pessoal, se eleva após a passagem.