Este som deve acompanhar, com toda a minha certeza, a leitura da parte 1.
A voz. Sempre aquela voz inconfundível e o burburinho ao meu redor que me impede de a ouvir. O burburinho e os impropérios habituais carinhosos do usual minha em vez dum insensível sua que nunca o será. Porque frio e distante - o pronome. A miudagem corre e percorre uma casa que desconheço. Uma casa com paredes mornas de madeira.
E a pergunta! Falta-me descodificar a pergunta sobre o texto - mas que texto?
Vai-se a voz, não se ouve aquele tom contínuo costumeiro do final e, eis que entra nova chamada. De novo mas desta feita sem a voz. Só o tilintar das teclas de uma velha máquina de escrever. Tamborilar incessante, gaiatos que escalam paredes e procuram elevar sons, um redemoinho de melodias que me obrigam a procurar uma parte sossegada naquele recanto que me faz sentir em casa mas que o não é.
Queres ouvir o que me rodeia, o meu dia-a-dia.
Desfaz-se esta imagem, aparece uma outra ainda mais intrigante. Cheias num rio de que não me recordo ou não desejo pronunciar o nome; pessoas que o atravessam quase a nado, de regresso ao lar após o labor, e eu de carro salto com este, de um lanço, sem medir o medo estampado no meu rosto, uma parte que me afundaria, apoiando-me, ao de leve, num pedaço de madeira que flutua perdida, e me deixa aterrar em margem segura.
Aprendi há poucos dias atrás, uma expressão curiosa:
"Friends with benefits".
Não me admirei tanto pelo facto de desconhecer tal dizer e já me abeirar dos quarenta; mas sim por saber que de facto existem tais pessoas com esse modo de vida. Será esta uma versão remodelada, ou moderna, da mais velha profissão do mundo?
O meu record matinal da sexta-feira passada: De olhos esbugalhados salto de um sonho para fora e fixo os bugalhos no mostrador do relógio, 8:20.
8:20!?!?
Os miúdos perderam o autocarro!
A escola começa daqui a 10 minutos!!
Hoje tenho que trabalhar fora da cidade!!!
lanches... lanches... lanches... lanches... vestir, vestir, vestir, vestir...
(o que se seguiu foi puro ilusionismo de coração a latejar entre as amígdalas)
Creio que pareci calma ao entrarmos pela porta da escola às 9h, e já mais assentada me senti quando consegui chegar a tempo ao trabalho ás 9:30 para seguir viagem dali a uma hora.
E no meio deste panorama todo, vejo a tua razão. Quando há séculos me dizias que viriam os dedos apontadores.
E que acima de todos esses dedos, veria o tal dedo a sobressair.
E vejo.
Abri um livro - The New Book of Knowledge, um daqueles que ainda pertencem à era pré-virtual -, à procura do Beijo. Sim, ainda o busco.
Infelizmente, o conhecimento sobre tal - o beijo - é algo que, ou não lhes interessa absolutamente, ou desconhecem a existência de tal. Ainda.
Mas felizmente, fiquei a conhecer este pintor.
Lembrei-me logo dos desenhos da Jessica - um dia destes mostro-os aqui.
Eu sei que tenho uma forte pancada por origens; desde a mais nobre à mais simples. Talvez porque seja algo que, à priori, é impossivel de termos absoluta certeza de.
A evolução dessas mesmas origens, e o conhecimento que parecemos ter a seu respeito, parece ser de muito mais fácil manejo do que o conhecimento do tal momento do parto. Nada possuimos senão uma sequência infinita de momentos causais.
Hoje virei-me para Ó pá!.
Quem teria dito isto pela primeira vez?
Devia andar tal pessoa com um galhardete na lapela: Inventorfónico, para que todos pudessemos prestar-lhe a devida homenagem. Pedir-lhe até um autógrafo na língua.
Inventor de uma das palavras mais usadas nos diálogos (e monólogos!*) portugueses.
* - Sei muito bem do que falo.
I don't want anybody to touch this!
... and that includes YOU: Miss Jessicanila! I know, I'm not dumb... No, you're not. Too smart, actually. Want to join my band? What's that? You don't know what a band is? Yes. It's a group of people that come together to make music, play and sing. So... I repeat: wanna join my band? What is it called? "Unknown". I don't know. What do you mean: You don't know whether or not you want to join, or you don't know the band?
... I want to join the band.
Espaço de tempo que mediou cada passagem de bola: nanosegundos.
A origem do:
- Beijo.
Sim. Pode ser mesmo um desafio para quem o queira empreender, e assim que tivermos alguma massa com que trabalhar, lá a meteremos ao barulho.
Será um comportamento inato ou adquirido?
E sendo-o este último, quais as causas que nos levaram a agir desse modo?
Vamos lá arregaçar as mangas e, muito cuidadosamente, retirar a película que envolve os beijos que damos, para descobrirmos o porquê deles serem.
Já o conheço há quase quarenta anos e desde sempre lhe vislumbro o balão de diálogo invadido por essa palavra, entremeada a cada dois segundos por outras tidas como normais. Foi vizinho(*) dos meus pais, o dum suposto rés-do-chão, é-o agora só da minha mãe. Destinos de quem parte cedo.
Aquele modo de a pronunciar, prolongando a segunda sílaba, ou melhor, o segundo 'á', embeleza-lhe a conversa, obriga-nos a um sorriso desenfreado mesmo que não se compreenda metade do que nos tenta dizer. Acho-o castiço, próprio do ser daquelas redondezas; tal como uma certa casta pertence a uma determinada região, assim se encaixa ele na palavra e por seu lado na terra, ou o contrário, isso é secundário. Só este detalhe já mostra o quão genuíno é o conjunto.
Na mesma onda, mas para contrariar a corrente--a minha corrente--tenho dado de cara com inúmeros indivíduos--curiosamente só me consigo lembrar que sejam do sexo feminino--que optaram por importar tal esquema lusófono nas suas conversações. O resultado é todavia sem piada, insosso, desprovido de carácter robusto, uma encosta para esquiar de inclinação 1%. Enfim, um dilúvio de pregos numa festa de balões.
Onde já se viu pensar que a anglofonia like algum dia superaria a lusa caralho que ainda hoje sai a rodos da boca do senhor Abílio.
Nunca!
* - Convém talvez mencionar que se trata de um homem nortenho. Do meu Norte.
O ar que se respira, dentro
As caras que se cruzam, doentias
Mascam, mascam, mascam
os segundos à vida
Mascaram essa vida com sabores simulados
em laboratório de química
Exalam o fedor de dias vazios
cobertores de mofo agasalham-lhes
os Invernos sucessivos
São só Invernos.
Há certas frases que me povoam o limiar do sono; aquela fina linha que só damos por atravessada quando já estamos no fim dela. Nunca sei o que significam e poucas vezes as registo. Desta vez fica aqui.
Ele alimentava um sonho: O de que possuía o segredo de viver.
Morreu esfomeado.