Uma pequena lembrança para alguém que aprecia sinais.
Só porque sim.
Este deve ser o que mais caracteriza esta nação.
Uma pequena lembrança para alguém que aprecia sinais.
Só porque sim.
Este deve ser o que mais caracteriza esta nação.
Cerca das duas de uma tarde de Inverno. Tarde de sexta-feira fria, de janelas geladas e suadas. O chão da cozinha implorava há uma eternidade que o refrescassem e eu olhava para o manto branco e só pedia que aquele frio me refrescasse as ideias. Com pouca vontade recolho o necessário a tal tarefa e é com estranheza que dou comigo a ler o rótulo do produto. Não as gordas, mas aquelas intermédias. Sunny Day Scent.
Com que artefactos se armaram eles para chegarem a este cheiro?
E que ligação com o Verão?
Munida desta curiosidade, abracei o esfregão já com outro entusiasmo.
E surpresa das surpresas!
Bailou-me aos olhos as tardes quentes de Verão. Do bidão em cima da placa, com água aquecida pelo sol, dos duches lá tomados no improviso do ralo dum regador.
E também de outras tardes, sempre aos sábados. Do cheiro que os banhos semanais impregnavam nas paredes de casa , e o vapor da água a escorrer pelo azulejo prolongava a magia desses rituais.
Agora toma-se tanto banho que nos será, por certo, impossível recordar no futuro qualquer cheiro deles.
- Hi! May I speak with Mrs. ...?
- Speaking.
- Oh hello, my name's Bob (ou John, ou Paul...) and I'm calling from the Weed Man...
- er... this is a joke, right?
- No, no. I'm calling you to off...
- Listen. This is about the 3rd or 4th time you guys call me this week, to which I always reply that I am NOT interested. What does one have to do to stop getting these nonsense phone calls?
- ...
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E não. Não se tratava de um fornecedor de marijuana
Só mesmo no erro é que tenho a primazia e, neste caso, até o exclusivo.
Sê bem-vindo à minha horta.
"don't push your love away
don't push your love away,
the kiss of death upon the door,
that's what you get for taking home a whore.
I shouldn't say that; it doesn't sound nice,
faith removes my fear sometimes."
The Exit
1 Vimy Place, é o local.
O estado de espírito durante e após a visita é bastante diferente daquele que se tem quando se visita um Museu de Arte ou da Natureza. Pareceu-me um local de reflexão, instrospecção, sofrimento, revolta, e ao mesmo tempo de aprendizagem. A cada passo dado por entre aqueles corredores carregados de imagens aterrorizadoras com sons a fazerem-lhe parceria, o coração pulava de sobressalto e, não me foi muito fácil acalmar o David que insistiu em que fossemos embora desde o segundo em que entrou lá dentro.
As surpresas ao virar da esquina
Um pormenor do carro ''Symbol of evil''
E para que eu não me esqueça de só o voltar a lá levar daqui a uns anitos
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E tal como não foi prometido, tenho o veículo completo à espera de te ser entregue.
Com o calor que me afogava ali dentro, após o frio gélido sentido enquanto esperava pelo autocarro, as pálpebras que, ou jogavam ao baloiço ou ao vai e vem das tábuas, acordaram tacitamente que, pelo menos uma delas, teria de se manter aberta. Foi durante esse concílio palpebrez que tombei a da direita - a que estava nesse momento ao serviço - no livro que a minha companheira de viagem lia: Bette Davis, The Lonely Life.
Uma curiosa ironia num autocarro repleto de gente.
E assim como o tic-tic de algum relógio que ouvimos e depreendemos por tic-tac, passei daquele pensamento a este outro - estranhas sequências se formulam cá dentro. Lembrei-me então de começar aqui uma espécie de rubrica fotográfica que retrate realidades e banalidades do meu dia-a-dia num país diferente daquele em que nasci. É bem provável que algumas delas já sejam conhecidas além-mar, mas não deixam de ser para mim dissemelhantes daquelas com que cresci e que ainda continuam agarradas à pele.
Seguem-se fotos assim que o termómetro subir.
Assim que bati com os olhos na página frontal da MacLean's desta semana fiquei aterrorizada! Não tanto pela descrição* da foto que faz capa, mas sim pela semelhança - física e, umas linhas revista adentro, não só - que vi naquela face com uma outra bastante conhecida nesta esfera (Não me atrevo a colocar aqui o seu nome porque a fronteira é bem próxima e tal...)
* Leia-se:
THE SCARIEST MAN ON EARTH
The nuke-happy, jew-hating lunatic president of Iran
Foto daqui.
A este cenário chamo eu de persistência-absoluta. O agir destes indivíduos é, sem sombra de dúvidas, de fazer pasmar o maior dos incrédulos.
E quanto ao meu agir, assemelho-o a estas figuras que me passam na mente da Resistência Francesa da II Guerra Mundial. De uma natureza contra-persistência-absoluta. Um verdadeiro jogo de braço de ferro ou de puxar a corda.
Tudo isto começou com um jogo: A completação de um simples puzzle.
Isso levou-me às galerias de fotos e daí a registar uma das minhas, foi um saltinho de tesoura. A partir daí, tenho vindo a ser bombardeada por ofertas que se acabam por tornar pedidos de compra. A todas essas, sorri, virei a cara, e esperei pela próxima; geralmente mais modesta em termos de valor que a anterior. Essa bola de neve parece ter agora chegado ao seu limite com a chegada, via carteiro(!), de um convite personalizado.
E querem ver que serei mesmo eu a ser premiada com o Grande Prémio?
(dizem eles ''We're familiar with your work...'', parecem tão seguros do meu potencial. Saberão algo que não sei? Como será Las Vegas em Março...?)
5.401 quilómetros.
Naquele um, encerrar-se-á um mundo de possibilidades com asas de libelinha a pousar ao de leve na minha mão. No meu nariz.
Haverá ('Haverão', risca-se) imperativos para tais acontecimentos coexistirem praticamente na mesma altura do ano?
- Chanukah
- Natal
- Ramadão
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Adenda às 22:54 de 25 Dezembro:
Mais uma correcção recebida via e-mail.
''... o Ramadão não calha sempre nesta época. Calha quando calha. Pode ser no Verão, na Primavera ou no Outono. O calendário islâmico é de meses lunares. Não se encaixa no nosso.''
Sempre a aprender :-)
Ou uma vontade muito minha de pregar partidas ópticas?
Não. Estes não são os meus tomates. Esses canalizaram-me os sentidos para a volúpia carnal; para o efervescer de almas em burburinho.
Estes aqui, são os dióspiros da minha mãe.
Os que me devolvem o sereno das visões nortenhas que tenho das árvores desnudas de ramaria mas paridas de frutos. Todavia cheiros, sim. A fertilidade.

Certos caminhos.
O que outrora nunca se me apresentou como tentação - sempre foi fácil recusar, virar costas, evitar -, aparece agora como um fantasma a pairar sobre mim.
E a solução parece que vem, na verdade, de dentro para fora.

São aquelas cenas de profundidade que me encantam.
O usar não é o bastante; preciso saber porquê, como, e, acima de tudo, de onde.
Há quem se ria até desta minha tendência de especificidade - mas sobretudo ri-se comigo -, é deixar. Haverá algum dia de dar frutos.
Começou com a beca (não confundir, atenção), seguiu-se-lhe o coche que levou consigo o tótil e bué, passando pela queca (atenção, não confundir) a bazar.
Uma diversidade abardinada.
Lembrei-me dele e até lhe pedi ajuda porque sei que o homem percebe do assunto.
Admirei-me de bué estar catalogado na Priberam e de otário ser visto como rasca neste dicionário.
Mas e todas as outras? Donde vêm elas?... qu'é da raíz das ditas?
Adjectivos não lhe faltarão, tenho a certeza.
Numa altura como esta, em que várias partes do mundo se vêm a braços com a das Aves, não deixa de ter a sua comicidade ao lermos hoje semelhante artigo.
Uma cruzada de bonecos que se seguem uns aos outros sucessivamente.
Há sempre um que se sai com a ideia e lidera a pesquisa--os vizinhos a sul--, estes quase sempre os farejam de perto e abocanham logo o rabo do outro. Quem se seguirá?
Que sim, que são pesquisas de laboratório, dizem eles.
Que sim, que há sempre imprevistos como o do leite derramado, digo eu.
Foto tirada ao jornal The Ottawa Citizen
Nota: Ainda estou boquiaberta com o facto desta notícia ter saído 'cá para fora'.
Nunca tal se me apagou da memória e já há dezassete anos que lá mora.
Vi-a pela primeira vez poucos dias após ter aqui chegado e logo que esse primeiro olhar poisou, tive a estranha sensação de que o mar se havia estreitado e a saudade podia ser estrangulada num pulo, como quem atravessa um regato.
Estranhas associações a que a mente se dedica.
Para os arquivos da SIC Notícias.
Isto sim, é uma espécie que foi analisada e que por sinal esqueceram de mencionar, está bem de saúde.
Deixem lá estar os patinhos do parque D. Maria II em paz; que esses têm tanto de selvagem como... de pássaros.
Sempre às ordens (da clareza).
Um texto recente da Mamã, acompanhado de uma certa conversa 'gasolineira' de há dias, veio suscitar em mim um aprofundar de certa matéria que já venho a pôr os olhos em cima há uma data de tempos; quer em revistas, jornais ou em conversas tidas com outros pais.
''Quality time''.
É o quê, concretamente?
Todos concordam que deva existir.
Todos sabemos o que significa 'qualidade', e o que significa 'tempo', mas quando se trata de exemplificar este 'modo de vida', é que já não concedo que exista concordância da minha parte.
Não me venham com horários estipulados para se ter 'quality time' por algum psicólogo que provavelmente nem filhos tem, como quem determina o horário mais correcto para se jantar, brincar ou deitar.
Estou ciente que existem tarefas para as quais convem que sejamos pontuais--mas se porventura o não podermos ser, há sempre uma alternativa; se o autocarro passou, vamos a pé.
A flexibilidade evita muitas artérias congestionadas.
De maneira que, da minha boca, nunca os miúdos ouviram nem ouvirão a sentença ''Let's have some quality time together!''.
Mas não é preciso que eles me peçam para me sentar com eles na berma da estrada a ver o tempo mudar a cor das folhas, ou para lhes esfregar a cabeça enquanto fazem os trabalhos-de-casa, nem de resmungar com eles quando deixam as pastas e os casacos espalhados pelo chão da casa, ou deitar-me com eles--nem que já sejam adultos--até que adormeçam.
Dou-lhes tudo isto e muito mais. Só não me peçam para trespassar a vida com o percurso rígido dos ponteiros.
São tiradas destas que me mantêm presa a uma leitura, sempre à espera de mais:
<< His writing was a mechanical game, a solitary pondering on his own errors, but it was not--he thought--''creation'', for creation had to be inspired by love of someone who is not ourselves.>>
Umberto Eco in Foucault's Pendulum
Não tinham as vozes alteradas.
Não pertubaram ninguém nem provocaram distúrbios - pelo menos a partir deles para o todo cá fora. Se nasceu algum distúrbio, foi só na mente de certos 'mirones'.
O único aspecto a apontar-lhes, seria sido de que não é permitido comer naquele local; somente a partir das caixas de registar. Assim lhes foi avisado.
Ou porque não gostou da cor verde do cabelo, ou do estilo 'dreadlock', ou então até das vestimentas e mochilas avolumadas, chamou o gerente os seguranças.
Não um ou dois, nem três ou quatro, mas seis!
Se calhar um para cada interveniente do caso. Sei lá bem, eu.
Lá dizia o sujeito '' I don't want them here again if they're not students... No, they're not allowed . Standing inside here eating, it's not allowed...''
Enquanto falava, abanava a cabeça muito peculiarmente, quase sem mexer o resto do corpo, como se de um fantoche se tratasse.
E a sua reza prolongou-se e apagava-se à medida que eu me ía afastando da caixa, do homem, dos seguranças. De tudo.
Sentada aqui ao longe admirei a cena sem saber qual o resultado imediato, e, secretamente, desejei que fossem estudantes.
Enquanto espero pela vindima, ando aos cucos por outras bandas (ou a enfardar de palha para o Inverno).
Vêm por Dose e a Metro. Diária e gratuitamente desde há uns meses para cá.
Dois jornais (!?) a encherem as ruas, literalmente.
Não andei na recolha do lixo, nem formulei gráficos de entrada de dados, mas, a peso de olhos, diria que existe para aí um aumento de 90% de sujidade por todo o lado onde se diz ser superfície.
As pessoas são as mesmas, o que mudou parece ter sido o 'poder de compra'.
Há pessoas com um espantoso poder de síntese.
Num só olhar transmitem anos de frases amarelecidas pelo tempo.
(escrito hoje; a visão é de algures, no futuro)
Quando o mais pequeno monossílabo emperra e custa a sair; quando o abandono às palavras se troca pelo abandono delas, os olhos insistem em se cravar no tecto branco de relevo picotado, onde se desenham todas as obras imaginadas, entrecortadas com a sombra do dia.
Enterram-se no branco do tecto à espera de ver folhear os dias, um após o outro, em branco.
- Mã... is my anus really out there?
- Huh?... não! 'tá aqui, ó... (e dou-lhe uma palmadita no rabiote)
- No, not that one. I mean the planet...
- (risos)
(pela sequência do pensamento do David, deverá ler-se 'myanus', tudo pegado)
Para quem gosta de voar, uma outra escolha para além do Google Earth:
Esta aqui
Bastante mais restrito nas opções que nos dá, com uma resolução que me deixou bastante a desejar por mais; tem, no entanto a vantagem de nos deixar sobrevoar livremente em qualquer direcção sem termos de clicar continuamente no cursor.
A minha escolha recaiu em Veneza. Foi aí que comecei o meu voo.
É ter como colchão um fio de água que dá ao corpo a ilusão do levitar, e como agasalho este manto de estrelas que se desdobra noite fora perante o olhar.
São tão somente mnemónicas celestiais.
A ursa pode virar tenda de circo e o pastor faz bolas de sabão com o cachimbo.
São tão somente tudo aquilo que desejamos que elas sejam.
Em Arcturus é onde tudo começa.
É lá onde o meu olhar poisa primeiro todas as noites.
O meu ponto de encontro com a noite e na noite, onde vislumbro desenrolar um lindo fogo de artifício.
Ou será alguém que envia mensagens luminosas galáxia adentro?
Foto em
O saltitão de capa preta.
Dali para aqui, daqui para ali
Encosta-se perdido à pena.
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Adenda encolhida* à pressa:
«Thine creaky grotesque phallus is freaked out by some firm watermelons»
Vers n°74158 created by revert to the ways of old, loplop, Woab, pt001, riacho on the 19/8/2005
* Não é "escolhida", é mesmo aquela.
Colecção Verão 2005 - "Rolo e Papel"
Se fosse de noite e eu estivesse de atalaia por detrás de um arbusto ou enterrada até aos joelhos na lama, com um pau e um saco pronto para lá o enfiar, eu até poderia jurar que estava à caça de gambozinos. Mas não. De noite, presumo que ele dorme, porque quem não dorme sou eu e nunca o vi na pilhagem a tais horas tardias.
Pouco levamos de peso na mochila: Muita amizade entre nós, audácia a multiplicar por dois, bom senso que baste, espírito de aventura para dar e vender.
O objectivo era chegar a Cerveira ainda de dia e assim o conseguimos.
De bloco-notas em punho, assinalávamos cada curva do caminho, cada gargalhada entre nós e a tristeza de não termos tido a companhia do terceiro elemento do grupo. Passaríamos muito facilmente pelos três-da-vida-airada se ele tivesse podido ir, como estava planeado, para finalizarmos em pleno o fim dos estudos e o começo do superior para alguns de nós. O culminar de um ano cheio de cumplicidades que se arrastam até os dias de hoje, com muito carinho.
A primeira boleia - que melhor poderiamos ter senão um camião? - levou-nos a cobrir uma boa parte do caminho, não posso agora precisar até onde.
Vou ver se descubro a metade do bloco que me coube para reviver um pouco mais de perto o último mês passado em terras lusas.
Vila Nova de Cerveira, 8 de Setembro 1988
Eu sei, soa bastante a mainstream.
Mas eu gosto.
Has someone taken your faith?
Its real, the pain you feel
The life, the love
You die to heal
The hope that starts
The broken hearts
You trust, you must
Confess
Is someone getting the best, the best, the best, the best of you?
(Foo Fighters)
Muito atabalhoadamente saí-me com esta: De que a razão pela qual o Canadá, sendo o único país na "lista" de Bin Laden que ainda não foi atacado, poderá dever-se ao facto de que uma grande parte deles (terroristas) serem aqui treinados (gargalhadas internas), ou então porque este manancial de terra é um bom escorregão para as fronteiras americanas.
Houve quem não gostasse muito da minha primeira maluquice. Paciência.
Também eu não suporto pés que arrastam sem cansaço e mentiras de embelezar a aura, e no entanto, engulo-os.
(para me refrescar a memória futura)
Muito estranho.
Foram inscrições que desapareceram para dar lugar a uma só. Esta:
"Rip and encoded by Anton 200"
Pois então. Repousem em paz, onde quer que estejam.
Mas que estou muito intrigada, lá isso estou.
Completa-se mais um ciclo.
O quarto-que por sucessão, até é, na verdade o terceiro-ângulo deste meu círculo que culmina no vértice que sou eu, por enquanto, sentada no cume com uma cana de pesca.
Sim, os meus círculos têm ângulos, linhas, estendal com fartura e molas a acompanhar. Têm tudo o que eu neles imaginar.
Foi neste dia que mais um homem de fibra apareceu na minha vida, para ficar.
É Homem-Aranha, Superhomem, Homem-Elástico (se ainda não existe um, passa agora a sê-lo ele), todo ele sorriso, todo ele beijo lambuzado num perfeito 'O' alinhavado com a língua.
(e mais não digo que a baba já não deixa escrever mais)
O tédio. O tédio. O tédio. O tédio. O
tédio. O tédio. O tédio. O tédio. O t
édio. O tédio. O tédio. O tédio. O té
dio. O tédio. O tédio. O tédio. O téd
io. O tédio. O tédio. O tédio. O tédi
o. O tédio. O tédio. O tédio. O tédio
. não há brecha que se vislumbre.
O tédio. O tédio. O tédio. O tédio. O
tédio. O tédio. O tédio. O tédio. O t
édio. O tédio. O tédio. O tédio. O té
dio.
São as minhas noites preferidas das noites quentes de Verão.
Essas que são tocadas, por horas a fio, pelas mãos do gigante tristonho e gentil.
Um violoncelo ou um violão.
As linhas horizontais, essas sim, as predilectas. Paralelas ao fio do horizonte, a uns 30, 40º deitadas ao longo dele.
Encasulo-me em frente à janela porque o momento é magnífico e ofuscante; aquele que me remete à minha insignificância, à minha pequenez e me embala num sono acordada.
Cansado o gigante, sente-se o ribombar terminar gradualmente para dar lugar ao violino da chuva, cadenciado, gracioso, como se fora lido na mais perfeita pauta de música.

Enquanto as notas de Chasing blue sky ressoam continuamente, evocando sombras enlaçadas a um tempo incerto.
Estendi-lhe o braço e repousei-o no braço de madeira que lhes facilita o trabalho.
Se bem que eu e agulhas nunca tenhamos jogado de bem - nem sequer as de crochet, que custam a sair uma vez enfiadas - nunca tinha sentido aquele receio.
Acho que foi a antecipação.
Eu vi-lhe nos olhos dela. Vi a despreocupação de quem não é meiga a enfiar; os gestos que indicam o 'despacho'.
A minha desgraça é essa: a antecipação.
E mais uma vez, fez 'trrimm'. Doeu.
Com os olhos cravados num poster em frente "how to be a good parent" (ironia das ironias), ouço-lhe a voz que me pergunta se estou bem, que me acha tensa e que relaxe.
"Relaxe", foi como uma ordem e involuntariamente obedeci.
Assim que relaxei, diz-me ela, o sangue começou a correr; de outro modo nada saía.
Estranho. Nunca tal me tinha acontecido.
O duplo A em relação ao poder inconsciente da mente: Assusta-me e atrai-me.
Numa era, como a nossa de hoje, em que transpiramos tecnologia por todos os poros, fica difícil de acreditar que se possa estar tão isolado do mundo que nos rodeia, do modo como eu me entrego por inúmeras vezes.
Não fora a curiosidade em saber a razão de ser do "Em Estado de (rosa) choque", e não teria ficado a par dos acontecimentos londrinos tão cedo.
Estará o cerco a cerrar-se?
Será que no próximo alvo, vou ter conhecimento dele de um modo mais imediato?
E depois pus-me a pensar: Será que os africanos necessitados saberão o que é o Live 8?
A ausência.
O trampolim imprescindível para se alcançar, de mão dada, lado a lado, o desconhecido.
Saltemos.
Resultou isto:

Deve ir desvairado da vida por esses confins fora, pobre coitado.
Meterem-se assim, deste modo abrupto, com a sua existência.
Era bom que os patos tivessem um dia licença para caçar quem o merece ser.
No one can hear me, ’cause no one is around
But I still hear your whisper in the dark
I know I can go, I know I can leave whenever I please
But time is a jailer for me
(...)
I shut out the light
Alone in the dark
This time of night
Is the hardest part
(...)
Time is a jailer - Anouk
Tomei aquela que fica a Sul, virei na direcção Oeste e regressei pela que fica a Norte, desta vez com rumo a Este.
Com alguns pequenos ziguezagues pelo meio, perfiz um grande "U" de hora e meia a pedalar. Com o objectivo alcançado, o rio, saborei o ar da noite mais agradavelmente fresco daquelas paragens, o cantar dos patos bravos entrecortado pelo de alguns cisnes, que fazem das margens a sua moradia.
Ponte sobre o Rio Rideau @ Montreal Rd
Teria eu ouvido 'west coast' e percebido 'east'?
É possível.
Mas também o é que tenha percebido perfeitamente bem.
E se assim o é, fico a magicar como podem ter feito assim um salto tão enorme, após terem traçado profecias sobre algo por vagos segundos, sem sequer aprofundarem as razões porque o fizeram.
Eu compreendo que a necessidade de atrair massas seja, possivelmente, ainda maior que a atracção que existe entre macho e fêmea - e nos dias que correm, nem só entre estes dois espécimes - mas há que manter uma certa coerência nos factos que se apresentam.
Nem tampouco ouvi mencionarem terramoto algum.
Lituya Bay - Alaska
Foi naquele sábado que me decidi a ir. Já me andava a prometer aquele encontro há bastante tempo, e numa inesperada onda de euforia, qual adolescente antecipando o seu primeiro encontro, larguei mão de todas as tarefas a cumprir - umas 2, 3 horas, não fariam diferença, pensei.
A verdade é que já o namorava, à distância, há uma data de tempo. Fiquei-me por uma eternidade, naquela relação platónica, a do olhar, a do voltear a cabeça e pensar "quando...?".
Aquelas horas que se iriam seguir, seriam só minhas e dele; de mais ninguém.
Foi um dos primeiros a ser construído, aí por volta de 1949, na cidade do pós-guerra, com aquele glamour ainda visível nas fotografias espalhadas um pouco pelas paredes. Ainda conserva, e ainda bem, bastante da sua originalidade, não se aliando aos avanços da tecnologia: nada de cartões de crédito ou de débito, só a pronto pagamento.
Estaciona-se na rua, onda calha, sem direito a um actual costumeiro mega-estacionamento, práticos, sem dúvida, mas enfadonhos, monótonos até dizer chega, como quem estaciona o gado para a matança.
O cheiro a mofo, a antigo, impera no local e para o toque final assim que assentamos o olhar no todo da sala, deparamos com aquela portentosa cortina vermelha (sim, de tecido e não plástico!).
Só as pipocas me desiludiram.
Não que estivessem rançosas ou fossem moles, simplesmente porque nem deveriam de lá existir. Nunca compreendi como é possível alguém gostar de assistir a uma sessão e metralhar os dentes ao mesmo tempo créc, créc, créc, créc!
É como fazer amor e crochet ao mesmo tempo; nem se aprecia um, nem o outro, em todo o seu esplendor.
"The Ballad of Jack and Rose" foi o escolhido.
Era o último dia de exibição, de modo que me presenteou com um bom número de cadeiras vagas à escolha, e por conseguinte, muito poucos disparos pipoqueiros.
Foi muito bom rever Day Lewis. Mais maduro que naquela época, mas a sua postura muito própria, continua a crescer pela positiva.
Ele é, para mim, sinónimo de uma viagem de comboio, dum encontro à entrada num qualquer cinema do Porto, de Kundera, do entrelaçar de mãos, da pele morena sob o vestido de aldogão amarelo, do cheiro a maresia com o conversar sobre o filme entrecortado de beijos dados sem promessa alguma...
Daqui a uns idênticos 17 anos, os mesmos que me distanciam desse Lewis, serão outras as lembranças, muito diferentes, é certo, nas quais predomino eu como personagem principal. Acho sempre triste sair do cinema sem ter com quem trocar impressões vivas do momento ainda quente, mas foi uma experiência fantástica ter ficado na incógnita, e invisível ao mundo que me rodeou enquanto o filme rodou.
Há que repetir a façanha e de preferência no horário nobre: o da noite.
Quando os sonhos se vão
as lágrimas tomam o seu lugar,
fertilizam solo
para uma nova vaga de sonhos,
mais maduros,
mais tangíveis,
mais reais.
Era uma sala cheia de gente, que poderia ser um café, uma classe, uma festa, um amontoado de sons. Ouve-se um toque, repete-se, remexem-se mil bolsos e, mesmo sabendo que não era o seu, todos o abrem e encostam ao ouvido. De volta ao bolso com um ar desiludido, aquelas mil caixas de fósforos.
Há um braço que se estica no ar, um rosto que se assemelha ao da minha mãe e me diz "É a tua mãe".
Fico confusa.
"Sim?"
Afinal a ligação era uma tele-conferência(*) a três menos um, pois a voz da minha mãe nunca a cheguei a ouvir. Só a dele. Tão nítida como nunca a tinha ouvido sob tal estado. "Escuta", ou teria sido "Ouve", não importa agora; o pedido sim, esse é que me deixou ainda mais perplexa. "Quero que me pintes um biombo", pasmada, cada vez mais pasmada, "pintado como aquele quarto..." (qual quarto, penso agora eu?), "sim, aquele de que já falamos".
E eu que sim, que me lembrava perfeitamente.
Naquele instante a memória é mais elástica que nunca, lembra-se de todo o pormenor, passado ou futuro.
Aponto medidas, esboço traçejados e nisto sinto a voz que se vai.
Chamo por ele mesmo sabendo que já não me ouve, mas estranhamente, o nome que sai não é o dele. É o do irmão.
Regressa o barulho que até então se tinha espantosamente esfumado. Olhos que se apontam para mim.
Sobressaltada, vejo a custo as horas, quase oito, estou atrasada. Os pés de chumbo arrastam-me os ossos doridos e músculos fatigados.
É sempre assim que me sinto após uma noite fértil.
Ao todo são doze.
Aí pelo quinto, sexto já se começa a sentir o frescor, o enlace húmido nos dedos, nos tornozelos, nos joelhos...
Ah! Pedras, benditas pedras.
Como vos amo.