quarta-feira, outubro 27, 2004

És total



Neste preciso momento, cobrem-te lentamente o corpo, habitualmente de um alvo aveludado, com outros tons que só te conferem ainda mais magia.





Confusa e disparatada




A minha verdade foi aqui inventada.


Esta saiu-me assim, tipo bolha de sabão.
Ainda vinha agarrada aos farrapos de algum sonho, a que agora me fogem os pormenores.
Deambulava ainda eu entre aquelas paredes que separam a ambiguidade do sonho e os sons ainda ténues do real, quando a ouvi sair da garganta, da minha.

Não lhe vejo é ligação.
Mas a verdade inventa-se?... se se inventa, poderá ser verdade?
E qual foi essa minha verdade com que me esbarrei?

Resumindo:
Vou ter que passar a dormir com o meu cadernito de capa azul à minha beira.

Multiplicidades



Hoje, quando voltava para casa, dou por mim a reparar (se bem que o faça também todas as outras noites quando viajo de autocarro, mas só hoje me deixei levar a publicar o que matutei)... a reparar no pessoal que me acompanha.

Com os olhos postos em cada cabeça que consigo ver, vou-os contando, todos os que estão de um lado e multiplico por dois... devemos ser uns 40 (é daquelas camionetas que parecem uma lagarta, dobra-se a meio) e dentro desses 40 consigo descortinar pelo menos, aí umas doze nacionalidades diferentes.

Ora... (aviso já que isto é um texto reflexão que vai ficar incompleto, sinto-o, e ter que continuar um dia mais tarde)... ora, o que me surpreende por demais, no meio desta sociedade, é precisamente, como é possível haver coesão entre tal multiplicidade étnica?
- um país que tem, pelo menos, 40% dos seus habitantes, origem que não seja inglesa nem francesa;
- não têm a mesma língua materna;
- costumes, crenças, modos de vida completamente diferentes.

Como, no meio destas dissemelhanças todas, se consegue obter homogeneidade?
No meio deste pluralismo, nota-se no geral, um caminhar lado-a-lado.

(e a este respeito já falei a "X", aqui há centenas de meses atrás, que iria publicar sobre isto, no entanto tenho vindo a adiar... continuo 'verde' no assunto... e por me achar 'verde' é que o vou deixar em aberto)


Hoje, fico-me pela pergunta.
Mais tarde, volto ao ataque; e para quem quiser dar a sua opinião, agradeço bastante que o faça... alarguem a minha visão (preciso de completar um projecto, por isso... venham daí novas ideias... eh eh eh)

terça-feira, outubro 26, 2004

Carpe Diem

"We must constantly look at things in a different way.

Just when you think you know something, you have to look at it in another way.

Even though it might seem silly or wrong, you must try it.

Consider what you think. Break out!
Don't just walk off the edge like lemmings... look around you!!"

- in "Dead Poets Society", escrito por Tom Schulman

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E é assim que talvez se consiga absorver o dia; chupar o instante até à medula.
(obrigada Cidadão :-) )

O nascimento de uma crise

Para quem o barco do aborto causou tanta polémica, que pensar (se é que ainda se pode pensar após saber-se de tais barbaridades), como agir perante o que se passa no Quénia?

Como horrível ironia, a política dos EUA ao cortar ajuda internacional de planeamento familiar (ao que eles chama de "global gag rule") que tinha como fim petendido diminuir a taxa de abortos; resultou precisamente no contrário: num aumento ímpar desses mesmos.

TODOS os dias, agentes policiais da cidade de Nairobi, enfrentam a traumática cena de recolherem fetos abandonados em qualquer lixeira da cidade.

Sacos plásticos são recolhidos do rio Ngong, um braço de rio deveras poluído, repletos de fetos (por vezes lá se encontra um ou outro bébé com a gestação completa).
Sacos, que esperam ser levados pelas chuvas, mas que acabam por se acumular nas margens durante a seca que houve nesta Primavera.

(...)

Na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, que teve lugar em 1994, no Cairo, 179 nações assinaram um programa de acção na totalidade de 20 anos, que visava melhorar as condições de saúde sexual-reproductiva até 2015.
Cada país participante tinha a sua determinada quantia a pagar; tendo os países em desenvolvimento, que contribuir com 2/3 dos custos do programa, e os países desenvolvidos, com o restante.
Como a lista é enorme, passo a reproduzir uma meia dúzia dos países incluídos (em dólar americano) só a título de (muita) curiosidade:

Dinamarca -
Devia: $ 203.7 M - Pagou: $ 323.8 M
Deve: $zero

Luxemburgo -
Devia: $ 22.8 M - Pagou: $ 26.9 M
Deve: $zero

Holanda -
Devia: $ 208.0 M - Pagou: $ 336.4 M
Deve: $zero

Suécia -
Devia: $ 296.7 M - Pagou: $ 388.1 M
Deve: $zero

Portugal -
Devia: $ 136.4 M - Pagou: $ 7.0 M
Deve: $ 129.4 M

EUA -
Devia: $ 12.3 B - Pagou: $ 4.1 B
Deve: $ 8.2 B

Reino Unido -
Devia: $ 1.9 B - Pagou: $ 1.1 B
Deve: $ 744.5 M (?) (de acordo com o que li)

Canadá -
Devia: $ 850.1 M - Pagou: $ 196.9 M
Deve: $ 653.2 M

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Por cada $1 M a menos recebido para fundos que vão contribuir para a compra de contraceptivos, equipamento medical e víveres, entre outros, resulta em:

360.000 gravidezes não desejadas
800 mortes maternas
14.000 mortes adicionais de crianças abaixo dos 5 anos
150.000 abortos provocados
11.000 mortes infantis


?

segunda-feira, outubro 25, 2004

Sinestesia

Lembro-me ainda,
que sabor têm os sons que pronuncias.

Lembro-me ainda,
as mais variadas cores que preenchem a tua voz.

Vejo ainda,
sendo eu já cega,
ao ouvir-te falar,
as mais belas combinações luminosas
que me estalam cá dentro
o olfacto
à passagem desses olores.

Cada nota, uma cor.
Cada som, uma brisa.
Cada ritmo, uma essência.
Cada palavra, um sabor.


m. leal
21 Outubro 2004

sexta-feira, outubro 22, 2004

Quem testa quem?

Eu acho impressionante a quantidade de testes que fervilham pela net (e não só) que nos ajudam a descobrir um EU que nunca atingiriamos, por certo, de modo algum, através de pura introspecção.

Eu já lhes perdi a conta.
Já não me recordo com que ser mitológico eu me assemelho... nem com que espírito irei acordar no dia 'X' às horas 'tal'... ou com que tipo de árvore todo o meu ser se entronca.

No entanto há um teste que me fascina: que cor de aura eu possuo!

Não é brincadeira nenhuma conseguir chegar a tal conhecimento através de uma dúzia de batimentos de teclas.
E na minha condição de sujeito com uma mente aberta, eu experimento tudo.

Até mesmo aplicar uma certa atitude científica face a estes testes ditos "iluminantes".
Portanto, na próxima vez que me encarar frente-a-frente com um personagem caçador de auras, agirei como James Randi e usarei a abordagem de Moisés: "Testa o profeta."

Randi: Consegue ver a minha aura ao redor da minha cabeça?

"Caça-auras": Sim, claro

Randi: Ainda consegue vê-la se eu colocar esta revista em frente do meu rosto?"

Caça-auras": Mas com certeza.

Randi: O que quer dizer então que, se eu me esconder por detrás de um muro ligeiramente mais alto que eu, você poderá determinar a minha posição simplesmente por conseguir visualizar a minha aura, certo?

Até hoje, o tal sujeito, ainda não acedeu participar neste simples teste.

quarta-feira, outubro 20, 2004

Tempus Fugit

É esta a inscrição gravada no bronze do relógio de sol que nos cumprimenta, solitário, assim que chegamos ao cume da ligeira colina, nesta linda propriedade que a todos pertence.

Quanto a mim trata-se de uma representação bastante contraditória com a percepção que eu sempre tenho assim que coloco os meus pés naquele pedaço de terra.
Em vez de fugir, o tempo, parece sim, regressar ao passado e estacionar em meados de 1900.
Tranquilamente, sem pressa alguma.
Aliás, iria jurar que esse mesmo tempo parece-me pairar imutável.

É, de facto, o meu canto preferido nesta fatia do globo.
Seja qual for a altura do ano, sou atingida por uma profunda sensação de serenidade e paz interior, ao absorver os tons, os sons e os odores destas paisagens.

Mackenzie-King, foi um homem deveras impressionante, com uma enorme visão, que nos legou este magnífico pedaço de solo por onde outrora caminharam ilustres personagens como Winston Churchill ou F.D. Roosevelt e se mantém nos nossos dias, tal e qual como ele o deixou.

Neste dia o sol não brilhou.
Permaneceu sempre por detrás de uma espessa camada nebulosa.
Porém a luz não faltou.
Teve sim, outra proveniência.



Para mais colorido, aponta aqui.

quinta-feira, outubro 14, 2004

quarta-feira, outubro 13, 2004

sexta-feira, outubro 08, 2004

Esta noite

Sou bicho-do-mato.
A claustrofobia ataca-me quando me rodeiam estranhos.
De sorrisos afiados, prontos à mordidela.
Apertos de mão que se enlaçam num engasgar do ar que respiro;
esses sorrisos tornados esgares
ao meu olhar.
Só ao meu.

Eu sei.
Sou um bicho-do-mato reles.

Esta noite conto com vocês.
Com cada um de vocês, sem distinção;
estranhos somente ao olhar visual.
De olhos fechados vamos dançar
tu... ele... ela... eu... todos nós!
Ajudem-me a enfrentar a noite que se aproxima.


~~~~~~~~

Só vos queria agradecer por todas as palavras que aqui escrevem, pela presença mesmo sem ser escrita.
Sei que por vezes vos respondo, por outras, não.
Não é por ser indelicada, acreditem.
Nem vou arranjar nenhuma desculpa esfarrapada.
Sou assim... 'um pouco' despassarada.
Um beijo em todos vós.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Troquei-lhe o fio atrás.
As colunas são agora nascente ao rubro de um dos sons que me mastiga o ser.
Prontas à partilha.
No desvaire do momento,
o corpo torna-se independente,
e
entre os meus solavancos ritmados,
no segundo em que esta passagem se ouvia:


I’m sick of the tension
Sick of the hunger
Sick of you acting like I owe you this
Find another place to feed your greed -
While I find a place to rest

Eis que me saltas ao colo!
Abraças-me de tal modo
que o meu e teu balanço rítmico, são um só,
esfuziante!

Só no fim do trecho reparo que tens o mesmo modo, que esta tua mãe, de absorver a música:
de olhos fechados!

(quando formos os dois ‘adultos’ - eh eh eh… esta é uma indirecta ;-) - eu e tu, David, vamos arrasar as pistas de dança! )

segunda-feira, outubro 04, 2004

Budget 2005

Numa das minhas idas à biblioteca, deparei-me com dois folhetos que me atraíram imediatamente.

O processo de criação do budget (orçamento ?) desta cidade começou.

Este ano, pela primeira vez, os cidadãos terão a oportunidade de expressar a sua opinião em relação aos contornos desse orçamento antes que seja aceite pela Câmara.

Um dos folhetos trata de nos dar informação a respeito do assunto delineado.
Com possíveis perguntas e respectivas respostas.
E o outro é o questionário em si.

Confesso que fiquei bastante surpresa e ao mesmo tempo feliz por ver tamanha abertura em relação à actuação directa do público na engrenagem de crescimento de uma cidade.


______________

P.S.: Cá está o dito link.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Curiosidade nata

Era meio-dia.
Num dia qualquer desta semana.
Esperavamos o autocarro da escola para o Daniel.

Com as miúdas já na escola desde manhã cedo, a minha atenção diminui para metade, de modo que me delicio com certos prazeres - habitualmente remetidos a segundo plano - como aquele com que me entretinha no momento: o envolvente abraço solarengo de Setembro que se findará num piscar de olhos.

Não me dei conta de como se levantou, nem qual dos dois induziu a esta acalorada 'discussão'.
Quando aterrei (no mesmo plano audível que eles), foi a partir daqui que os apanhei:

Daniel diz: “No! The front of the road is nowhere!!”
David responde: “No… you’re wrong! IT is everywhere…”

Viram-se então os dois para mim, após uns largos minutos de exuberante discussão madura entre dois miúdos de cinco e três, respectivamente.

Os dois: “Mããã… where is the front of the road??”


Esta pergunta dos miúdos transportou-me de novo à minha infância.
Fazemos continuamente comparações de viveres, de acções...

Quantas vezes me lembro eu de ter presenciado conversas em criança, entre adultos e mais jovens e perante a curiosidade, sempre no pico, da criança, a maioria das respostas que essa mesma tinha eram:

- "olha... olha! Mas que palerma! Isso é pergunta que se faça?"

- "... ui! ... que tristeza! Não tens mais que fazer do que fazer perguntas parvas?"


E por aí fora.
O que não faltava era desse tipo de exemplos.

Perante reacções deste género, como pode uma criança tornar-se forte no saber e continuar a querer descobrir para além do que os seus olhitos vêem?

Porque será que temos todo um potencial de querer sabermos mais, mas que tem tendência a sumir com o decorrer dos anos?



quarta-feira, setembro 29, 2004

Lock & Key

No fundo, talvez não passemos disso: Lock and Key

Tudo o que somos,
tudo o que fazemos,
procuramos,
ansiamos...

Tu-do no todo!

Uma sucessão infinita de processos Lock & Key.

E não me apetece esmiuçar mais.
Quem quiser que o faça.
Que me desminta.
Que me ajude a ver de outra forma.
Que me conteste, porra!

terça-feira, setembro 28, 2004

Prelúdio de um todo

Esta caiu cá dentro
e não há meio de se esvanecer.


"So close no matter how far
couldn't be much more from the heart
forever trusting who we are
and nothing else matters"

(...)

segunda-feira, setembro 27, 2004

Ela desafiou...

... ao qual eu retorqui!

Um excelente exercício merecedor de uma/s repetição/ões.
Vale a pena ler as demais ramificações que surgiram.

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Tudo

por Riacho



“Tudo?!”, repetes tu, enfatizando no olhar essa enorme admiração, ao mesmo tempo que tentas desenvencilhar-te do meu toque; consegues fazê-lo de um modo delicado, no entanto firme.
Como que este elo surtisse em ti uma poderosa influência que desejas eliminar.
Após um longo suspiro, com os olhos voltados para as tuas mãos, ali pousadas na mesa, desamparadas, sós, balbucias as palavras como que se falasses contigo própria:
“Já está tudo contado… tudo àcerca de mim”, enfrentas o meu olhar e continuas “ cada história que te contei, continha pedaços de mim, simulados, sempre em segundo plano, de modo a não atrair demasiado…”
Olhas em volta, temendo que mais alguém te possa ter escutado revelar algo que te é tão precioso.
Abraço-te num sorriso condescendente, que é ao mesmo tempo indicador do profundo efeito que a tua beleza me provoca.
Pensando bem, não és extremamente atraente.
Não és daquele tipo de mulher capaz de fazer os homens girarem sobre si mesmos ao ver-te passar.
Contudo, existe algo em ti… sim!
Acho que é esse olhar. Um olhar que acolhe.
Uma beleza em segundo plano, como tu própria te defines.
É isso.
Tens algo que cativa o segundo olhar (aquele que perscruta o que está para lá) e nos faz permanecer assim, como que embalados por essa beleza serena.
“Não compreendo essa tua inclinação de te ficares pela sombra”, consigo finalmente pronunciar umas palavras, saindo do transe em que me envolvi e penso “nem tu imaginas o lugar de destaque que ocupas na minha vida, nem nunca me atreverei a dizer-to".

“Já me devias conhecer melhor”, replicas tu com um sorriso matreiro, desafiador “quantos já são?… cinco anos?”
Aceno afirmativamente com a cabeça e mergulho de novo em pensamentos.
Quero que me sigas neste trajecto interno.
Necessito que leias nas linhas do meu rosto os contornos da minha reflexão.
Cinco anos volvidos, depois que nos cruzamos pela primeira vez em palavras, por um daqueles acasos intitulados de “meros”.
Cinco anos depois de múltiplas permutas escritas - conheço tão bem o teu modo de esplanar os sentimentos, que seria capaz de discernir um dos teus escritos no meio de uns cem.
E cá estamos, frente a frente, pela primeira vez. Cada um de nós reflectido nos olhos do outro.
Não sei como pude aceder a este encontro. Nunca quis materializar a nossa já bastante estreita afinidade, com o receio que caíssemos numa relação fútil. Um medo infantil, por certo, de que a realidade não correspondesse a esta imagem de nós que foi escalando vertiginosamente estes anos todos.

Abanas o rosto negativamente, como que a responder a este meu último pensamento e de novo aquele sorriso de menina:
“Anda! Vamos sair daqui”, convidas-me naquele teu modo impulsivo, “este lugar é demasiado pequeno para escutar as histórias que nos vamos contar”.
“Agora és tu que me desafias”, penso eu, e deixo-me levar por essa tua jovialidade inocente de menina perdida no tempo, sem idade.

Pagamos o jantar, ligeiramente tocado, aliás, tão absorvidos estavamos na conversa, e saímos lado a lado.
Enquanto esperavamos que o trânsito nos oferecesse uma abertura para atravessarmos, descaio o meu olhar na tua mão esquerda, ali mesmo ao meu lado e, sem saber como, dou comigo a entrelaçar os meus nos teus dedos, muito lentamente, a medo.
Procuro uma âncora nos teus dedos.
Dedos que tanta vez já me ampararam à distância, em cada texto teu que li.
Desta vez não opões resistência ao toque.
Levantas ligeiramente a face, olhas-me, um carro buzina frenéticamente avisando que estamos no seu território, distrai-nos, quebra por segundos o fio que ali se formou…

“Merda!”, acordo sobressaltado, “vou chegar atrasado.”
Olho o relógio, apreensivo.
“Ainda estou a tempo de a ver, mas… será que devo ir?”
Não peso os prós nem os contras.
Levanto-me num ápice e, sem me dar conta, lanço pelo chão da sala aquelas folhas de papel.
Cada uma delas contém histórias tecidas pelos teus dedos.
Lanço mão a um casaco, atiro-o sobre os ombros e saio de casa.


(escrito a 17 de Setembro, 2004)

domingo, setembro 19, 2004

A minha alma traja negro

Carreguei-te no pensamento cada minuto deste dia após aquele telefonema pela manhã.
À medida que as horas se alargavam, os meus passos pesavam cada vez mais com o crescente amontoar de pensamentos.
E foi-me muito difícil seguir o dia como se nada tivesse acontecido; aguentar as brincadeiras e o riso das crianças, que alheias a este sofrimento meu, continuavam no seu mundo de faz-de-contas habituais.

"Foi o Durão...", começou por dizer a minha mãe.
Durão! Nunca compreendi muito bem o que levou os teus pais a te colocaram este nome tão pouco usual como nome próprio e o mais interessante é que mesmo depois de to terem retirado (por lei), continuaste a ser Durão para nós.
Como se tratasse de um nome de código, afávelmente pronunciado, só entre nós, de um modo especial.

O que se seguiu naquela conversa telefónica, fez com que eu, por mais forte que tentasse ser, desabasse numa explosão de emoções que me paralisaram a fala. Tive que desligar apressada. Não consegui proferir nem mais uma palavra.
Quero saber: Porquê!
Não o porquê de teres sido tu (a essa pergunta sei que virá o derradeiro esclarecimento, mais tarde, um dia).
Tento é racionalizar o que se passou comigo, ali.
Sei tão pouco de ti e no entanto o choque foi tal que me abalou os alicerces.
Imagina tu!... nem a tua idade eu sabia!
Um puto que eras.
22 anos de sabedoria.

Teria sido porque senti em mim a terrível impotência que a tua mãe deve ter sentido, ao querer abraçar-te, tentando dar vida a esse corpo a que um dia lhe deu existência?

Será que foi por sentir que a ordem natural tivesse sido alternada e por conseguinte outros elementos deste "elenco familiar" a que pertencemos, também eles, poderão seguir o mesmo caminho?
(porra!... és - eras :-( - o segundo mais novo!!)

Ou teria sido por achar que tinhamos tanto em comum e nunca trocamos mais do que carinhosas palavras enquanto crianças?
Sim... acho que ficamos para sempre, com a imagem um do outro, pelo que fomos na infância.
Lembras-te... quando aí estive há dois anos, eu quis estreitar esses laços. Tornar-te mais chegado.
Vejo grandes semelhanças entre ti e a Jessica... sois parecidos física e mentalmente; por isso quis que fosses tu o padrinho dela.
Não deu para isso, paciência, mas fiquei bastante triste...

E porque a distância assim o permitiu, se me lembro de ti agora, vem-me à mente a tua figura de menino pequenino.
Lá aparecias tu com o avô na "carripana", a entregar as compras pela vizinhança.
De semblante muito sério para a tua tenra idade, adoravas ser o parceiro dele a jogar à "sueca".
Sabes... sempre admirei (e o orgulho em ti estava ali de mãos dadas também) como conseguia essa tua cabecita ainda tão inexperiente (devias ter uns 5 anos), memorizar aqueles naipes todos!


O vale do Ave viu-te crescer.
Coimbra acabou de te formar em Medicina.
Um emprego esperava-te no ramo que sempre te interessou.
E Ponte de Lima ceifou todos os sonhos.
Teus e dos que sabiam do teu potencial.

Foste precoce em vários aspectos da tua vida.
Até na morte.

Até um dia, querido primo.
(..........)

quarta-feira, setembro 15, 2004

:-)

E depois daquela carga de vocábulos acabados de expelir, eis que me despeço... temporáriamente.
Voltarei, com muito menos tempo, menos assiduidade... com muitos menos.

Passarei, por certo, a falar mais com os olhos que com as teclas.
Passarei menos tempo a ler-vos (muito contra a minha vontade, mas enfim...)

São ciclos.
(como diz o meu 'amigo' Mataratos)
E este é um novo que começa.

Beijos a todos e a cada um de vós em especial.

Um desabafo (por falta de melhor título)

Não tenho por hábito reger-me por generalizações, mas devo admitir que nos são úteis e servem como fio-de-prumo na descrição de povos, por exemplo.

E depois, claro, há deviações a esse fio, como em todos os parâmetros que nos guiam.
O ideal seria que o geral se desse sempre pela positiva (o que nem sempre é o caso), que as excepções do negativismo formassem, essas sim, o geral.
Uma utopia, isso sim!

Tomemos o caso da imagem geralmente feita aos portugueses.

Há vários caracteres que nos generalizam (concordam, não?), mas aos meus olhos existem dois que sobressaiem dos demais:
- A hospitalidade;
- A vaidade.

Será que existe correlação entre as duas?
Se não fossemos tão hospitaleiros, tornar-nos-íamos (isto estará bem escrito?) menos vaidosos?

Eu gostava de focar aqui esta última, a vaidade.
Quanto a mim, uma vaidade exacerbada.
Uma vaidade que me marcou desde tenra idade, pela negativa.

Compreendo que se goste de vestir bem... perfumar-se da cabeça aos pés (...cuidado com as alergias!)... ter que sair por 5 minutos para comprar pão e passar meia-hora a "arranjar-se"... deslizar pela nave da igreja a nova fatiota (que por azar é igual à da vizinha!! @#$@%&)...
Eu compreendo isto tudo (embora não pratique nem aceite), mas quando esta vaidade escapa da aparência física que nos envolve e atinge o corpo físico em si... isso doi!

Houveram frases que ficaram marcadas na minha memória e afectaram mesmo a minha personalidade.
Frases segredadas por entre as mãos que se queriam fazer ouvir.
Olhando de lado o "objecto" dessas afirmações peremptórias.
Frases e olhares que me queimaram, como quem queima o gado com ferro em brasa.
De tal forma que desde que entrei no 1o ano até ao 12o (ou seja, toda uma adolescência), nunca usei saia!

Com certeza outra pessoa teria agido de outra maneira.
Se calhar só eu me escondi desta forma... porque sou fraca (aliás, fui mais fraca). Demasiado sensível para fazer ouvidos de mercador.

O que me põe a pensar em outros alvos que existem, casos ainda mais graves em termos de diferênça física.
Quantos e quantos não haverão por essas ruas fora a serem "vaidosamente analisados" por quem possui as "medidas certas"!

Portugal é uma sociedade que segrega. Isola. Atraso desolador de mentalidade.

As excepções existem, como já acima referi, eu sei... só é de lamentar que esses não componham um todo mais aceitável, mais justo.

~~~~~~~~

Como complemento de informação (e não é que o seja obrigada a fazer; é mais uma necessidade muito minha), acrescento que a minha diferênça física deve-se ao facto de ter sido atingida por Polio, tinha eu uns 5 mêses de idade.
Após algumas intervenções cirurgicas, feitas já tardiamente (assim era a medicina nessa altura) na minha adolescência, permaneci com uma ligeira desigualdade nos membros inferiores.
Nunca me impediu de andar, saltar ou correr como uma doida que (ainda) sou; mas que raio... também nunca pude entrar numa sapataria, comprar qualquer tipo de sapato e sair com eles nos pés.

Mas que vaidade a minha!